Tratamento Odontológico

O tratamento odontológico de rotina é seguro e recomendado para pessoas com hemofilia. Isso inclui visitas regulares ao dentista para a realização de ações preventivas, como orientações sobre técnicas de escovação, aplicação de flúor e selantes, e identificação precoce de cáries. Um programa rigoroso de promoção da saúde bucal pode evitar muitos procedimentos invasivos, como extrações dentárias, reduzindo assim os riscos de hemorragias bucais e a necessidade de doses extras de fatores de coagulação. Essas práticas impactam positivamente na qualidade de vida dos pacientes com hemofilia.

O tratamento das pessoas com hemofilia é essencialmente multidisciplinar. Isto não foge à regra durante o planejamento do tratamento odontológico. O cirurgião dentista deve consultar o hematologista para obter informações básicas acerca do quadro geral de saúde do paciente, periodicidade da administração de fatores da coagulação (isto inclui saber a modalidade de tratamento instituída, que pode ser apenas sob demanda de eventos hemorrágicos ou profilático), presença de inibidores e a possibilidade da prescrição de agentes antifibrinolíticos* (ex.: ácido tranexâmico) por via oral para minimizar hemorragias secundárias a procedimentos odontológicos com maior expectativa de sangramento.

Pacientes com hemofilia A leve e moderada poderão ser candidatos à administração do DDAVP (acetado de desmopressina). Este produto, que é um análogo sintético da vasopressina, causa o aumento transitório dos níveis plasmáticos basais do Fator VIII da coagulação. Para os pacientes com boa resposta terapêutica ao DDAVP, procedimentos odontológico invasivos (incluindo extrações dentárias) podem ser realizados com sucesso após a sua administração. Nestes casos, o hematologista deve ser consultado previamente sobre esta possibilidade, e o paciente deverá ser submetido a um teste específico capaz de verificar a efetividade do DDAVP em seu organismo. O DDAVP não afeta os níveis plasmáticos do Fator IX da coagulação, portanto, não apresenta eficácia para pessoas com hemofilia B.

Outro ponto importante que não deve ser negligenciado pelo cirurgião dentista ao tratar pessoas com hemofilia é o uso de medidas locais para o controle de sangramentos após procedimentos odontológicos invasivos. Estas medidas incluem o uso de suturas (costuras) em massa, e outros produtos biocompatíveis com ação hemostática diretamente sobre o local do sangramento na cavidade bucal.

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Cirurgiões dentistas que não integram os CTHs, mas sim as equipes de saúde bucal dos Programas de Saúde da Família, ou aqueles que atuam em consultório particular, poderão executar procedimentos menos complexos sem oferecer maiores riscos às pessoas com hemofilia. Estes procedimentos incluem:

  • Ações preventivas e educativas, como mencionado anteriormente;
  • Procedimentos periodontais básicos, como raspagens supragengivais para a remoção de cálculos dentários (“tártaros superficiais”);
  • Restaurações superficiais e profundas;
  • Tratamentos endodônticos (“tratamento de canal”);
  • Tratamento ortodôntico (“instalação de aparelho”);
  • Confecção de próteses dentárias (“coroas”, “dentaduras” e “pontes”).

A grande maioria desses procedimentos podem ser executados sem a necessidade da administração de doses adicionais de fatores de coagulação, caso alguns cuidados específicos sejam tomados pelo cirurgião dentista responsável.

Apesar da infusão do fator de coagulação não ser uma necessidade nos casos acima mencionados, as pessoas com hemofilia que estão no programa de profilaxia, devem dar preferência à realização dos procedimentos odontológicos nos mesmos dias da infusão.

Procedimentos onde há uma expectativa de sangramento abundante requerem, obrigatoriamente, o uso prévio da terapia de reposição com fatores da coagulação. Estes procedimentos incluem:

  • raspagens subgengivais e em locais com inflamação/infecção ativa;
  • procedimentos periodontais cirúrgicos (ex.: aumento de coroa clínica e cirurgia periodontal);
  • extrações dentárias;
  • frenectomia*;
  • instalação de implantes dentais.

A exceção à regra se dá quando da necessidade de bloqueios regionais durante a anestesia odontológica. Ou seja, a infusão do fator de coagulação deve ocorrer antes de qualquer procedimento odontológico quando existe a necessidade do uso de anestesia troncular ou do nervo alveolar inferior. Nestes casos, devido ao risco de hematoma na região retrofaríngea e consequente obstrução de via aérea superior, deve-se proceder a administração prévia de fatores da coagulação para a execução desta técnica com segurança. Isto significa que o cirurgião dentista deverá prever com antecedência a necessidade da administração de bloqueios anestésicos para o seu procedimento, requerendo junto ao hematologista a terapia de reposição de fatores da coagulação.

Recomendações específicas para a reposição de fatores da coagulação previamente a procedimentos odontológicos estão detalhadas no “Manual de atendimento odontológico a pacientes com coagulopatias hereditárias“,  publicado em 2008 pelo Ministério da Saúde.